Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Quem tem livro é Rei!


Durante 4 anos da minha vida trabalhei em educação e formação de adultos em Portugal e, por tal, considero ser particularmente sensível às questões do ensino-aprendizagem.
Esta não será a única razão. A bem da verdade sempre adorei aprender, sempre me senti muito grata por ter acesso a educação e pelas pessoas que me incentivaram a fazê-lo.
Muitas coisas me revoltaram e frustraram nesses anos, perceber que o analfabetismo ainda existe no nosso país e, mais ainda, perceber que existe uma coisa chamada analfabetismo funcional. Passando a explicar: existem muitas pessoas, que não aparecem nas estatísticas, que estudaram até à 4ª classe (ou 4ºano), e que unicamente sabem assinar o seu nome ou escrever e ler o minimo. Também aqui me apercebi que o dinheiro é, e continuará a ser, um obstáculo a que muitos não consigam aprender, seja porque não podem pagar as propinas, explicações, fotocópias, seja porque o seu meio social não incentiva ao estudo, seja porque para estudar é necessário tempo e disponibilidade que muitos não têm pois trabalham em condições precárias.
Ou seja, em Portugal como em Moçambique podemos dizer que o ensino é para todos, mas só no papel...
Quando falamos de alunos economicamente desfavorecidos, como os meninos que apoiamos, diversas questões dificultam a frequência da escola e o sucesso escolar, como não terem acesso a livros escolares, acesso a computadores para elaborar os trabalhos solicitados na escola, não terem dinheiro para os uniformes obrigatórios, não terem apoio nos estudos, etc.
A iliteracia é uma questão que já vem de longe. Pelo que pudemos ler sobre isso, na altura da colonização o ensino de qualidade era só para alguns, a maioria do povo moçambicano apenas aprendia a ler e a escrever, e era doutrinado. Quando foi declarada a independência uma das medidas do Samora Machel foi tornar o ensino gratuito e para todos. O problema é que não havia professores, e ele institui e apelou a que todos que soubessem ler e escrever ensinassem o seu próximo. O que veio piorar as questões do ensino foi a guerra civil, que durou 16 anos, e matou muitos professores, muitas escolas foram destruídas, houve muita imigração para as grandes cidades e portanto os problemas com a educação continuaram. Hoje, nas cidades principalmente, já se assiste a uma grande valorização da escola e da educação mas os problemas que falei acima não ajudam.
No entanto, o que realmente nos chocou por cá não foi nada disto, mas sim a corrupção que se pode observar nesta área. Muito se discute acerca das transitações de ano “administrativas”, isto é, quem paga passa de ano, quem não paga muitas vezes não passa mesmo que tenha tido aprovação ao longo do ano. É algo que afecta muito os jovens, pois sentem que o seu esforço não será reconhecido. Existem livros de distribuição gratuíta que nunca chegam aos alunos necessitados, pois são desviados.
Aqui podemos compreender a importância que tem ter um livro. Imaginem o que é estudar biologia, matemática ou química apenas com os apontamentos das aulas?! Ou estudar inglês, francês ou português sem dicionário nem gramática. Por isso afirmamos: Quem tem livro é Rei J

Propusemo-nos, durante a nossa missão, a angariar livros de estudos para os jovens mais velhos da Casa Esperança e, como por milagre, batemos à porta de um instituto politécnico (IMEP). Estávamos apenas a pedir informações mas a Directora Pedagócica ao aperceber-se da nossa situação ofereceu-nos um montão de livros como doação à Casa Esperança. Não nos deixa de surpreender a generosidade que por aqui se encontra!
A felicidade dos nossos jovens ao ver estes livros foi algo único de observar, por isso partilhamos esta história convosco.
Estamos Juntos!





Marta Dias

Terça-feira, 5 de Março de 2013

Inhassunge – do outro lado do rio

A vista na marginal dos Bons Sinais é sem dúvida magnífica, principalmente ao nascer e pôr-do-sol. Do lado de cá vêem-se as tonalidades de verde sobre as águas e adivinha-se a beleza do outro lado do rio. Quinze minutos depois, e 10 meticais de viagem, chegamos ao nosso destino – Inhassunge.

Logo percebemos que a distância, por pequena que pareça, é incompreensivelmente grande. Diríamos que é um fosso abismal que separa estas duas localidades que se observam ao longe diariamente.

Em conversa com pessoas locais, com os nossos parceiros, com os nossos companheiros de viagem, tentámos compreender esta distância e o que está na sua origem (para além daquilo que já nos haviam contado em Portugal). Tudo começa com os coqueiros. Há bem pouco tempo palmeirais povoavam toda a área de Inhassunge e proviam sustento para esta população. Directa ou indirectamente, trabalhando para a Madal, quase todos viviam do côco. Mas os coqueiros começaram a adoecer e não se tendo encontrado solução para este acontecimento optou-se por queimar e cortar as palmeiras, tentando que a doença não se propagasse. Muitas foram e são as organizações que estudam este fenómeno e que procuram soluções para o resolver. Já se tentaram plantar outros tipos de palmeiras, mas parece que adoecem também. Já se procurou cultivar todo o tipo de alimentos, mas o solo arenoso e pouco fértil não é o ideal para as culturas. Neste momento Inhanssunge vive essencialmente do arroz, que é seu sustento.

Os arrozais sem fim e as mamãs a quelimar, é uma visão incrível!



No dia em que chegámos pela primeira vez tinha parado a chuva e todos saíram de casa para plantar.





Neste momento algumas organizações, como a Concern, estão a apostar no cultivo do Gingerling, para que as populações tenham formas alternativas de sustento.

Outra grande questão que trava o desenvolvimento desta localidade é a falta de estradas. Ou antes, de estrada. Há apenas uma estrada em construção, em terra batida, cheia de buracos, o que dificulta a chegada de produtos e a saída e entrada de pessoas. Como sabem a província da Zambézia está a ser muito afectada pelas chuvas, o que torna o caminho para o Carungo quase intransitável.

Por tal, apenas carros com tracção às 4 rodas conseguem circular e é muito comum as viaturas avariarem. Sendo assim há muito poucos transportes o que origina situações deste género:



Um chapa em Inhassunge!



Contactando com a população percebemos que muitas das famílias mais pobres, e com as quais trabalhamos, viram as suas casas destruídas pela chuva.

Percebemos assim, no terreno, a diferença que faz o apoio da ataca nesta região. Com o donativo as famílias planeiam reconstruir as suas casas e, com o apoio dos nossos parceiros em Inhassunge e do aconselhamento prestado, irão investir em casas melhoradas, para que nas próximas intempéries não vejam as suas casas vir abaixo de novo.

Percebemos também que todas as crianças apoiadas pelo projecto se encontram a estudar, o que é uma vitória numa região em que a escola não é ainda valorizada pois a machamba e o apoio aos familiares são tidos como prioridades.

Assistimos a uma verdadeira solidariedade entre vizinhos, algo que não nos deixa de espantar por terras moçambicanas, em que todos se encarregam de apoiar o seu próximo, seja dando-lhe guarida ou partilhando comida.

As mamãs na sua maioria não falam português, mas a comunicação vai-se fazendo com ajuda dos nossos colaboradores. Apercebemo-nos a determinado momento que algumas das mamãs novas no projecto não sabem ainda utilizar a certeza (produto para desinfectar a água) e temos um momento improvisado de formação. Rapidamente o Sr. Monteiro arranja um frasco de certeza, e o Sr. Popote explica às mamãs e papás em Chuabo como podem utilizar a mesma!




Do outro lado do rio, em frente à capital da Província da Zambézia, há crianças que nunca fizeram um avião de papel, há crianças cujos bancos de escola são troncos de árvore, há crianças que não têm lápis de cor, há crianças que cuidam dos pais e avós. A distância entre Quelimane e Inhassunge é enorme, sim, mas a distância entre Inhassunge e Portugal é incalculável…

A distância é longa mas não intransponível e estamos juntos para que este sítio não seja esquecido…






Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

A chegada

A chegada


O tempo aqui em Quelimane passa de um modo bastante particular, corre lentamente, os dias começam cedo e alongam-se, quase diria arrastam-se. Não dizemos isto de modo negativo, de todo, acho que é aquilo que esperavamos, a calmaria e calor de uma qualquer aldeia alentejana misturada com o caos de uma grande cidade.

Chegadas a Quelimane (quelimar quer dizer cultivar), o maior impacto foi mesmo o do calor. Acredito que tenhamos apanhado um dos dias mais quentes do ano, 40ºgraus e uma humidade inacreditável. Por mais que te aches preparado o efeito é avassalador! Como é que é possivel pensar, fazer seja o que for com este calor?

A cidade é uma cidade tipicamente africana, muita gente, muito trânsito, muitas bicicletas, pessoas, lixo, pó, bancas a vender de tudo em todo lado, barracas pintadas com a publicidade local. Não se pode dizer que seja uma cidade bonita, mas para mim tem uma certa beleza decadente. Parece que parou nos anos 50/60 e nunca mais foi pintado ou arranjado. Quelimane teve os seus primeiros semáforos recentemente, na recta que vem do aeroporto. Ouvimos o motorista do “táxi” a gozar e a dizer “ semáforos para bibicletas??”. A bicicleta é o principal meio de transporte por aqui. A experiência mais incrivel foi andar de táxi bicicleta, que é andar à pendura numa bicicleta, ao que se chama andar de táxi, o que se torna uma grande aventura porque há imenso táxis, carros, movimento de todos os lados mas os taxistas são uns prós. É demais! Descobrimos que a maior parte dos taxistas faz pelo menos 25 km numa estrada de terra batida e passa o rio dos bons sinais todos os dias, pois vêm de inhansunge. Dá para perceber que a vida aqui é dura para alguns.

Os encontros de 3ºgrau com bicharocos são diários, reagimos super bem, acho que foi o que menos nos custou. Ele é ratazanas (já temos um amigo, o Mussas), baratinhas (não em casa neste momento), louva-a-deus, osgas, corvos, morcegos, montes e montes de rãs que passam a noite a cantar, um sapo gigante com ar ameaçador que teima em vir pra nossa casa. Por incrivel que pareça o que mais as nossas colegas receiam é os cães, pois há muitos cães de guarda e são bastante agressivos, pois mal tratados, duas delas foram atacadas já e por isso é estranho passar por cães aqui.

Adoramos conhecer o mercado, parece que se está em Marrocos, tudo é comprado ao “lugar” (que é uma unidade), tem de ser regateado e negociado, o arroz comprado ao copo, nada de coisas embaladas. Apesar de termos gostado de conhecer o sitio, sentimo-nos pela primeira vez um pouco inseguras, por seres branca as pessoas acham que tens dinheiro, ficam a olhar pra ti de cima a baixo, abordam-te a pedir ajuda, ou a tentar vender-te algo mas não têm uma atitude agressiva, pelo contrário.

No inicio da semana tivemos o nosso primeiro contacto a sério com os bairros, de Coalane e 31 de Janeiro. Sair da cidade dá animo, tudo é mais bonito, mais verde, depois das chuvas tudo está alagado o que torna as visitas uma aventura. A Luisa, uma das antigas voluntárias, quer despedir-se das familias, então corremos umas 15 casas de familias, 3 horas sempre a caminhar a um ritmo alucinante. O nosso guia é o Melo que conhece os bairros como a palma da mão. A recepção das mamãs não podia ser melhor, a mamã Angelina recebe nos com um grande sorriso convida-nos a sentar na sua esteira e acreditem que não há nada melhor que uma esteira e uma sombra nesta terra. Mostrou-nos a sua casa, é uma casa já com algumas condições, o que quer dizer aqui que ja tem luz, é maticada, mas nada de janelas ou outros “luxos”. Convidou nos para ir lá almoçar noutro dia e acompanhou nos um pouco ao longo do bairro. Um pormenor interessante, para os africanos nós “brancas” somos todas iguais e por isso é comum chamarem nos o mesmo nome! Ou então brancas ou chinas :p

O bairro era muito limpo, muito mais que a cidade, por todo o lado um cheiro incrivel a terra. Montes e montes de bebés e crianças que correm na tua direção.

As mamãs são muito bonitas, uma beleza que reflecte claramente o interior e que transparece no olhar. O olhar é espelho e forma de comunicar.

Por vezes o sorriso largo contrasta com uma tristeza profunda no olhar, mas na maioria das vezes o que se sente é uma pureza e generosidade nas acções. Nada têm, mas o melhor oferecem. Uma lição aqui do Sul.

Inês, Mariana e Marta



Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013


Magia da entrada num novo ano

… Por muito que negue, a entrada num novo ano para mim tem significado. Por muito que repita da boca para fora que: “é apenas uma noite”; “é simplesmente a passagem de um ano para o outro”; “no dia seguinte tudo será igual”; “nada vai mudar”. O que é certo é que na realidade, e por muito momentânea que seja, a esperança que sinto no último dia do ano é superior aos outros 364 dias.

 Antes de celebrar um novo ano, penso que todos nós paramos e reflectimos sobre o ano que passou. Lembram-nos de todos os nossos triunfos e falhas, de todas as promessas feitas e quebradas, das vezes que nos abrimos para grandes aventuras ou das vezes que nos fechamos por medo de nos magoar. Fazemos o nosso pequeno balanço e por muito que digamos que tudo está igual, há sempre uma pequena mudança. Um amor que apareceu, ou se perdeu; perdemos emprego ou ganhamos experiência profissional, novos laços de amizade foram criados, outros fortalecidos; apanhamos desilusões; temos surpresas, etc…

Eu, pelo menos, continuo de ano para ano a fazer isso, e porquê? Porque é sobre isso que na minha opinião o novo ano se trata. Acreditar que o novo ano nos dará mais, que de alguma forma vai alterar a nossa vida para melhor. O novo ano, é para mim, uma nova hipótese. Hipótese de perdoar, de fazer melhor, fazer mais, dar mais, amar mais. Parar de pensar “e se”, e apenas aceitar e aproveitar o que venha a acontecer.

 Se há um ano, na noite de 31 de Dezembro de 2011, para 01 de Janeiro de 2012 me relevassem o meu futuro e a mudança que a minha vida durante o ano de 2012 iria sofrer, tenho a certeza que não acreditaria.

Jamais acreditaria que viria para Moçambique numa missão tão especial. Jamais acreditaria que iria passear nas ruas e quase ser atropelada por ratazanas, que iria olhar a minha volta, e ver as pessoas circularem nas ruas descalças, que iria ter de esperar pacientemente por tudo sem reclamar, que iria ser tratada pela “ Branca”, que teria de assistir a crianças de 13anos serem mamãs, que teria de viver com uma osga em casa e gostar da presença dela por causa da Malária, que caminharia na rua e de 2 em 2 minutos teria de cumprimentar pessoas que nunca vi com um sorriso, que teria de ajudar crianças que frequentarem o 5ºano a estudarem, mas que não sabem ler. Enfim, jamais acreditaria que teria de viver durante 6meses entre o “normal africano” e o “normal europeu” a tentar conseguir encontrar um equilíbrio entre os diferentes normais e procurar sentir que de alguma forma contribui para tornar o meu normal, mais normal na sociedade africana.

 Por isso e muito mais, mesmo que por vezes os pensamentos negativos prevaleçam, todos os anos e mesmo com a idade a aumentar, os rituais vão acontecendo. Peço desejos, rodeio-me das pessoas que gosto e me fazem bem. Subo para uma cadeira, ergo o pé esquerdo, como uvas/passas e penso nem que seja momentaneamente: “este ano vai ser melhor”. E agora pergunto, não há esperança? Claro que há esperança J

Então quando o novo ano entrar, tentem se lembrar de uma simples frase que ouvi e nunca mais esqueci:

“O que farias hoje se soubesses que não falharias?.... Então vai e faz.”

 Feliz 2013 para todos

Micaela Lopes

Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012

Formação às mamãs!


No passado dia 22 de Dezembro, realizamos uma formação, para as mamãs e papás, orientada para duas temáticas: o HIV/SIDA e a nutrição. Esta formação foi monitorizada pela Karina Vargas, voluntária da International Relief and Development e pelas voluntárias da ataca. No âmbito do HIV/SIDA, esta formação teve como objectivo desmistificar algumas ideias sobre a propagação do vírus da SIDA, esclarecer dúvidas, alertar para a importância de uma conduta responsável e preventiva e incentivar a realização de testes regulares não só nos adultos mas em todos os elementos do agregado familiar, inclusive nas crianças do projecto.

Não só Moçambique, como os restantes países da Africa Austral, têm taxas elevadíssimas de pessoas infectadas com HIV/SIDA e, infelizmente, as pessoas ainda têm muitas dúvidas, muitos mitos, muitas ideias erradas sobre a propagação desta doença e a sua cura. Uma vez que o desconhecimento é o principal veiculo para uma conduta de risco, incidimos grande parte da nossa formação no esclarecimento destes mitos sobre a doença, realizando um jogo onde as mamãs respondiam verdadeiro ou falso aos mitos locais que íamos afirmando. Por exemplo, deparamo-nos com mamãs que achavam que o vírus da SIDA se propagava pela picada do mosquito ou que o preservativo é transmissor de doenças, febres e dores de cabeça. Portanto, enquanto existirem pessoas com estas ideias nunca é demais uma formação como esta.

A outra parte da nossa formação incidiu sobre a importância de uma alimentação equilibrada tendo em conta os recursos locais, alimentares e económicos. O nosso objectivo foi explicar a importância de uma alimentação equilibrada e nutritiva utilizando os alimentos locais. As possibilidades económicas das famílias são escassas, no entanto, esta terra é muito fértil e rica em alimentos e a maioria das nossas mamãs dedica-se ao cultivo na machamba. Uma combinação perfeita dos alimentos, que as mamãs conseguem adquirir na machamba e alimentos de custo reduzido, é crucial para uma melhoria na qualidade nutricional das refeições dos agregados que integram o nosso projecto.

No final, o balanço desta formação foi muito positivo. Aqui deixo umas fotos da formação!

Luísa Arez
 


Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012

Há determinados direitos que não deviam ser negados a ninguém, muito menos àqueles que se esforçam por atingir determinados fins por puro prazer, pelo puro “querer” mais simples e genuíno.

“Querer” ser alguém, “querer” chegar mais longe, é um desejo individual, e cada um sabe aquilo que quer para si, cada um sabe até onde deseja chegar.

Falo do direito à educação, do direito de ter acesso a um
sistema de ensino justo, do “querer” estudar, do “querer” tirar boas notas, para mais tarde quem sabe, ter uma boa profissão, para que esta lhe permita ter uma vida digna.

Aqui em Moçambique as coisas nem sempre são assim tão simples. Nem sempre basta estudar. Nem sempre basta ser um aluno aplicado, curioso, interessado e estudioso.

Por vezes até se pode estudar, até se pode passar noites em claro, pois o “querer” de ver uma boa nota na pauta, é suficientemente grande para isso, mas muitas vezes esse “querer” não é suficiente.

Existem interesses, interesses esses, que muitas vezes levam o aluno aplicado, curioso, interessado e estudioso, aquele que por puro mérito só deveria ser premiado com uma boa nota na pauta, a ver todo esse seu “querer” ser tirado com a maior das facilidades.

O sentimento de frustração é grande, o não poder lutar contra tal, é uma das maiores injustiças com que já me deparei.

Há direitos que não deviam ser negados a ninguém.
 
Raquel Cruz

Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012


Viver é bem diferente de imaginar…

Passados 3 meses ainda não consigo responder a uma simples pergunta: “Porque é que decidi vir numa missão de voluntariado para África?”

Numa base diária, nos meus momentos de introspecção, e quando procuro respostas para esta pequena questão, cada vez mais me apercebo que as respostas não vêm sempre que são precisas, e muitas vezes ter de ficar simplesmente à espera delas é a única resposta possível…

Por aqui, e julgo não ser novidade para ninguém, as “faltas/carências” são mais do que muitas. Antes de vir para Moçambique imaginava o que me esperava, criei vários cenários e tentei ao máximo baixar as minhas expectativas com o objectivo de minimizar o choque cultural que sabia que iria viver.
Os cenários foram então criados, alguns muito negativos, outros mais positivos. As expectativas foram baixadas e as dificuldades que imaginei sentir foram aumentadas. E agora pergunto-me eu: “foram suficientes?!” Não, não foram e isto explica-se de uma forma muito simples. Imaginar e viver são duas “coisas” muito distintas. Imaginar faz-nos pensar na forma como nos iremos sentir, viver implica sentir na realidade. 

Sabia antes de vir, por testemunhos de pessoas que tiveram oportunidade de estar em Moçambique, que os Moçambicanos na sua generalidade são um povo pobre, alegre, generoso, humilde e aparentemente feliz. A minha imagem do povo Moçambicano estava criada, os sentimentos que iria sentir e a forma como iria lidar com algumas situações estavam nos diversos cenários… Agora pergunto eu: “ajudou?!” Sim e não…. Actualmente mais do que nunca sei que imaginar é diferente de viver e tudo se resume a sentimentos.

Aqui diariamente sinto a generosidade das crianças/famílias do projecto, que apesar do “pouco” que têm, o “tudo” nos oferecem. Sinto a felicidade das pessoas, mesmo quando muitas vezes não sabem se no dia seguinte vão fazer alguma das refeições. Sinto que apesar de todo o cenário “negro” à sua volta ainda têm esperança em dias melhores. Sinto a gratidão face à nossa ajuda. Sinto uma gigantesca impotência ao conviver com famílias que não têm um prato para comer; que não têm uma bacia para tomar banho, que não tem água e energia, que não têm dinheiro para comprar uniformes para as crianças, e por que por este motivo estas não podem frequentar a escola. Sinto que uma criança muda o seu percurso de vida simplesmente porque engravidou aos 14 anos…

Perante tudo isto e ao contrário de tudo o que imaginava que iria sentir, sinto-me uma pessoa egoísta. “Como é que posso sentir tanta “falta” perante esta realidade que vivo diariamente?”... “Sentir falta de Internet, quando as minhas mamãs sentem falta de comida?!”... “Sentir falta de televisão quando as minhas mamãs sentem falta de energia?!”... “Sentir falta do meu quarto quando as minhas crianças nem quarto têm?!”... “Sentir falta do meu carro quando aqui as minhas mamãs e crianças caminham quilómetros para chegarem aos seus destinos?!”

 ...Esta tem sido uma das minhas lutas desde que aqui cheguei, lutar contra os sentimentos e aprender a lidar com eles… 

Micaela Lopes*