Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012
Esse fruto
A semana passada tive a minha primeira ida a Inhassunge, amanhã terei a segunda. É sem dúvida um sítio com maiores necessidades, as actuais são bastante precárias, mesmo assim as pessoas têm sempre um sorriso guardado para nós. Recebem-nos com esteiras e uma multidão de vizinhos surpresos com os visitantes de cor tão clara. As crianças vêm devagar e esticam o dedo ao mesmo tempo que fecham os olhos, como se ao mínimo toque nós pudéssemos explodir. Foi uma experiência fantástica, por mais cansaço que no fim possamos sentir, o espírito está consciente e repousado, o nosso trabalho é de facto enriquecedor.
Mas existe outra faceta que me faz questionar a razão de tanta pobreza. A natureza é tão rica, tão abundante, então porque não têm estas pessoas mais do que comer? Claro que pobreza não é apenas a falta de alimento, mas a sua falta não deixa de ser um indicador de pobreza, até uma própria dimensão. Por experiência própria, sempre que viajei para países subdesenvolvidos, as cidades costumavam ser os locais mais precários, onde as condições de vida abalam qualquer um. Mas nas vilas, ou locais mais pequenos, as pessoas costumam plantar, fazer criação de animais, ou seja, ter pelo menos o mínimo que comer. Podem de facto faltar apoios para a saúde, educação, mas as pessoas vão comendo. Aqui, a realidade não funciona assim. Nas cidades, menos pobreza, nos locais menos populacionais, mais. Mas então porque é que as pessoas de Inhasunge não se juntam em pequenas comunidades para tratar da terra e fazer criação de animais? A natureza certamente fornece as condições necessárias para que o esforço não seja em vão, pelo menos na maior parte das vezes. Perguntei a um senhor o que ele achava disso, porque esperavam as pessoas que tudo caísse da árvore? Ele respondeu-me que era simplesmente assim, as pessoas preferem apenas tratar da sua Machamba (pequena porção de terra cultivada). O problema disso é que nem toda a gente tem o mesmo jeito para o cultivo, e reunidos os esforços, reunidas as pessoas mais competentes para cada tipo de trabalho, acredito que o resultado final iria ser muito melhor. A criação de animais, com estes terrenos tão ricos, parece-me que não teria um sucesso menor. Com a sua cultura, o seu método de vida, as pessoas esperam demasiado pelas ofertas da mãe natureza, que as árvores e o solo lhes dêem o que necessitam. Vê-se tanta fome, mas o mesmo não deixa de ser verdade para as soluções nos locais rurais.
Combater a fome das cidades, de Moçambique, ou seja, de um ponto de vista macroeconómico, é realmente difícil, principalmente num país em que a corrupção é palpável. Combater a fome nos sítios rurais parece-me um primeiro passo essencial. Comer é uma necessidade básica, e todo o resto, trabalhar, estudar, concentrar, será de seguida mais fácil.
Sei que ainda me falta ver, aprender, mesmo assim não deixa de ser verdade que realmente me questionei sobre isto. Claro que a solução é demasiado linear, demasiado simples, mas foi de facto o meu primeiro raciocínio, ao qual eu próprio posso ser o primeiro a refutar e expor os seus problemas. Mesmo assim, todos juntos, dividindo esforços, as pequenas comunidades tão subnutridas teriam certamente mais hipóteses de sobreviver.
Duarte Guimarães
Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
Mil cores, cheiros, sons... Moçambique!
Das “boas vindas”, como nos dizem quando passamos na rua e país da amizade: “amiga!”, uma das várias maneiras que os locais utilizam para nos abordar.
Mil cores, cheiros, sons no mercado que nos “atropela” com variedades de peixes, legumes, frutos e muitas outras coisas que tenhamos necessidade – especiarias, canetas, cadernos, pilhas – num ambiente contagiante.
Povo humilde, que vai vivendo o dia-a-dia consoante o seu próprio ritmo… Mas, sempre sorridente! Não existe futuro…somente presente.
Mas, como será possível não haver futuro para este povo, que de forma constante se apresenta de bem com a vida? O que nos faz (re) pensar, (re) organizar tudo o que adquirimos na nossa vida Portuguesa ….. porque agora a vida é Moçambicana. Para praticar o bem, colocarmo-nos no lugar do outro!
Na Casa Esperança, ficamos absorvidos pelos cantares das crianças, que tão bem entraram nos nossos ouvidos: “onde está a amizade alô, alô”.
Passeio incrível o que realizamos quando vamos aos bairros visitar as famílias. Não é um impacto fácil, pelas condições comunitárias que existem para as pessoas viverem ou sobreviverem? Mas, apesar deste cenário o bom acolhimento permanece, a música não pára; as crianças correm atrás de nós com sorrisos rasgados e olhares brilhantes, que são o sinal de estarmos aqui. Na conversa com as mamãs, é bom perceber que com o contributo da ataca (voluntários e tutores) estas famílias começam a implementar pequenas/grandes mudanças na sua dinâmica.
Gratificante é, também, na entrega do dinheiro às mamãs perceber que algumas já conseguem compreender como devem gerir o dinheiro que recebem e pensar o que fazer no futuro… E felizes por estarmos ao lado delas.
Dia após dia, naturalmente, vamos entrando numa nova vida!
E fico a pensar como será possível este povo ter sido “rejeitado” por direitos humanos e fundamentais? E por milhares de pessoas que ignoram os modos de vida existentes a milhares de quilómetros de distância. Mas…. a Humanidade não se desenvolve sozinha!
Beijinhos e abraços,
Até breve!
Rita Castro Meneses
Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
Um bloco para a construção da educação!
Este espaço pretende melhorar a formação, os conhecimentos e o bem-estar de todas as crianças.
Assim, esta tão desejada Biblioteca é actualmente a grande felicidade das crianças pois, apesar da quantidade de material ainda ser limitado, podem ter acesso a muitos livros, revistas, enciclopédias, jogos, etc.
Este projecto contou com a participação activa de todos, dos mais velhos aos mais novos. Ajudaram a organizar o espaço, a pintar a porta, a organizar os livros, pintar e colocar as categorias, entre outras tarefas.
Afinal, este é um espaço de todos e para todos!
Afinal, “educar é crescer. E crescer é viver. Educação é, assim, vida no sentido mais autêntico da palavra”.
Esta foi mais uma pegada!
Obrigada à Lara pela excelente contribuição neste projecto!
Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
“Quem corre por gosto não cansa!”
Assim, começamos a seleccionar novas crianças em Quelimane e em Inhassunge para serem apoiadas através do Projecto Tutor à Distância. Em primeiro lugar, é necessário falar com os secretários de bairro e/ou chefes de bairro, pois são eles que conhecem melhor a realidade local, nomeadamente, as casas mais carenciadas da sua zona. Este é um processo longo e delicado, uma vez que temos que perceber bem a dinâmica de cada casa para apoiarmos aqueles que realmente mais precisam. A verdade é que quase todas as famílias necessitam de ajuda mas precisamos focar a nossa atenção para aquelas que correm sérios riscos de sobrevivência.
Em Quelimane, o dia começa às 6.30h da manhã para fugir, dentro do possível ao calor que se faz sentir nesta altura. Normalmente, visitamos várias casas durante toda a manhã. Para além da dificuldade de esmiufrar toda a verdade dentro de cada uma delas, deparamo-nos também com o problema das distâncias entre as casas e da chuva. Este tipo de trabalho leva-nos muitas vezes a andar de bicicleta e a pé mais de 4 horas só na parte da manhã. A maioria das famílias daqui é composta pela mãe e por várias crianças, usualmente, filhas da mesma mãe mas de diferentes pais.
Em Inhassunge, o dia começa mais cedo, uma vez que temos que apanhar o batelão às 6h da manhã para atravessar o rio dos Bons Sinais. Do outro lado do rio, aguardamos pelo carro da nossa parceira Concern que nos leva numa viagem de 45 minutos até a Inhassunge. Depois disso, estamos por “nossa conta”, uma vez que o carro não consegue chegar às casas que pretendemos apoiar mas andamos sempre acompanhados por alguém da Concern ou da ANAI (outra parceira da ataca). Do outro lado do rio, encaramos o problema das chuvas mas também outras dificuldades. Como por exemplo, o facto de não termos bicicleta que acaba por atrasar as visitas, visto termos que fazer todos os trajectos a pé. Ao contrário de Quelimane, aqui encontramos famílias menos numerosas. Vemos muitas famílias constituídas apenas por uma avó e o seu neto, como também observamos muitos adultos com cegueira.
São duas realidades muito diferentes que carecem de apoios e, pelas quais, diariamente batalhamos para fazer o nosso melhor. Mas como se costuma dizer: “Quem corre por gosto não cansa!”
Mónica Correia