Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Metas com cores e rostos!

Com o começo de um novo ano, começa-se também a fazer as entregas dos donativos dos tutores da ataca do 1º trimestre em Quelimane.



Por diversos motivos a ataca optou por privilegiar a entrega dos donativos em cheque. Para tal, é necessário que as nossas mamãs/papás tenham o Bilhete de Identidade.

Por isso, o que conseguimos constatar nestas entregas? O que podemos constatar é que atingimos mais uma vitória – 100% das entregas foram realizadas com cheques.


Para que esta meta fosse alcançada as voluntárias fizeram um grande trabalho de acompanhamento com cada mamã/papá aos estabelecimentos do registo civil.



Para além desta meta, também é de louvar a entrega dos donativos a 6 mamãs novas. Antes desta entrega, optamos por mais uma vez realizar a formação sobre o PTàD.




Novos corações, novos rostos, novas cores, novas histórias, novos percursos mas… a mesma ambição – tornar a vida da sua família mais risonha!



O Dino é o retrato desse sorriso!



Recentemente, segundo a mamã, “na escola deram-lhe corrida porque não tinha uniforme”. Por isso, com este primeiro apoio da ataca vai conseguir continuar na Escola pois, finalmente irá comprar o uniforme!




Em nome Delas e Deles agradeço a todos e a todas que tornam tudo isto possível!

Estamos junt@s!

Isabel Fernandes 



Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

SONHO DE MÃE NEGRA


SONHO DE MÃE NEGRA
 
Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou
Que o amendoim ontem acabou.

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho irá à escola
À escola onde estudam os homens  

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades
Cimentando-as com o seu sangue
Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada
Na estrada onde passam os homens

Mãe negra
Embala o seu filho
E escutando
A voz que vem do longe
Trazida pelos ventos
 
Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver

(Marcelino dos Santos)

Ana Oliveira

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Queres ler? Paga!


Algumas vezes faltam-me ideias para o que escrever no blog, existe porém sempre alguém que me dá uma ‘luz’. Desta vez foi a mamã de uma das crianças do projecto. Estávamos nós à conversa depois de uma excelente refeição que nos foi oferecida em sua casa quando a mamã nos diz, “Vocês são brancos, têm estudos, mas mesmo assim tratam-nos tão bem… Por que é que então os nossos negros com estudos nos tratam tão mal?”. Pensei imediatamente no blog.
Verdade seja dita, não serão certamente todos os moçambicanos com educação universitária que tratam mal os seus compatriotas, mas sem dúvida que uma grande percentagem o faz. E por tratar mal quero dizer sem respeito, sem educação, com uma clara segurança que são melhores que o próximo. Já o assisti no hospital, na rua, em cafés, essa forma inexplicável como algumas pessoas tratam aqueles que estão numa posição de os servir. Parece que se esqueceram que somos todos seres humanos, que aquele ali que me serve poderia ser eu se a minha vida tivesse uma história um pouco diferente, com mais azar, com menos sorte. Relacionado um pouco com este fenómeno encontrei um outro, o comum suborno. Mas o melhor é começar pelo início.
Ultimamente tenho tido a experiência de viajar muito de camioneta, quer em trabalho quer em lazer. Em Moçambique as estradas têm muitos controlos policiais, e em quase todos eles as camionetas são mandadas parar. Qual foi o meu espanto ao reparar que o condutor inseria sempre umas notas no meio dos documentos, as quais só faziam meia viagem, pois na volta os documentos já vinham sem a sua companhia. Pensei que tinha visto mal, que não poderia ser assim ‘tão às claras’. Quando perguntei a pessoas amigas elas confirmaram, sem espanto, esse comum procedimento.
Depois fui descobrindo sem grande surpresa, mas com grande indignação, que estes fenómenos de suborno são muito comuns na sociedade moçambicana, “queres passar no exame de condução, paga X”, “queres trabalhar nesta empresa, paga X”, queres passar de classe, paga X”. Não me quero tornar repetitivo, mas esta frase por certo que o é. Já faz parte desta cultura, se chegamos a certo posto em que podemos aceitar subornos, aceitamos, somos parvos se não o fizermos, assim sendo também o pagamos.
Quando digo que estes dois fenómenos poderão estar relacionados é porque esses subornos são aceites por pessoas em postos de trabalho com alguma qualidade, com um certo poder de decisão, onde já é requerido na maior parte das vezes algum nível superior de educação. As pessoas por terem um melhor trabalho já recebem um salário um pouco mais elevado, mas a esse salário falta em muitos casos adicionar os subornos, esses ‘trocos’ tão comuns.
Para acabar não posso deixar de salientar que na minha opinião estes fenómenos são muito comuns em países subdesenvolvidos. Quando a maioria da população tem uma educação muito precária, a minoria aproveita-se, mas quando a maioria tem uma educação de qualidade esses problemas tendem a diminuir, a não serem pelo menos ‘à vista de todos’. Espero por isso que no futuro esta situação só possa melhorar.

Beijos e abraços,
Duarte Guimarães

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

O início da mudança…

Aqui, na terra, onde planear o futuro é uma incógnita vive-se o dia-a-dia conforme o sabor do tempo. Por isso, o não trabalhar, o não estudar, o não ter dinheiro para comida, o só fazer uma refeição por dia e, num caso extremo, nunca fazer uma refeição por dia, é vulgar para estas pessoas.

Engraçado é que o “europeu” chega, e ouve as mamãs a dizer que vão na machamba e que  é a única forma de subsistência e caso, a natureza, lhes pregue uma partida, não têm alternativa para conseguir comer. O que faz o “europeu”? Na maioria dos casos e, de forma involuntária, (espero eu, que assim seja) tem um discurso “fácil” para as mamãs: “a mamã sabe que deve iniciar um novo negócio; a mamã não pode continuar assim…”, se a criança não vai à escola: “porque é importante ir à escola” – e eu pergunto: Porque é que as pessoas se comportam  assim? Serão assim, porque é da natureza delas e não haverá nada a fazer por elas? As pessoas nasceram traçadas para sofrer ou para serem felizes? Será que nasceram, sem o direito de dignidade e respeito?

 Pois, para mim, toda a gente nasce com direitos iguais mas, não escolhe onde nasce nem as circunstâncias em que nasce! O problema é estrutural, que acaba por conduzir a um ciclo vicioso… a um Ciclo de Pobreza! Se é certo que a pobreza sempre existiu e sempre vai existir, não devemos ter a utopia de que, com o nosso trabalho, iremos extingui-la; mas podemos procurar caminhos modestos para introduzir mudanças neste ciclo.

 Para esta mudança, é essencial ouvirmos a pessoa envolvida, o que acha da situação em que se encontra; dar voz para que a pessoa consiga exprimir o que acha que deveria ser feito. No entanto, a mudança de comportamentos não é fácil e, para tal, é necessário experimentar pois, só sabemos se determinada situação é benéfica quando temos a experiência dessa vivência.  


A este respeito, partilho convosco o caso de uma família que a ataca apoia: este agregado é composto por três crianças e três adultos. Um dos elementos é uma jovem rapariga de 23 anos que não estuda, nem faz negócio – passa os dias todos em casa.

Na primeira visita que realizei, esta jovem recusava-se a falar comigo, recusava que a pesássemos e a medíssemos. Logo, percebi que alguma coisa se passava, pois a sua cunhada (irmã do seu companheiro) começou a dizer-me que não se falavam porque essa rapariga  se negava a tomar conta das crianças aquando da sua ausência, que apesar de viverem na mesma casa, parecia que viviam em casas separadas.

Falei com cada pessoa individualmente e depois reuni todos, para tentarmos perceber, em conjunto, o que seria melhor para todas as pessoas, naquela casa – argumentando a importância de serem uma família e de se entenderem como tal, a importância de um relacionamento saudável para o bem-estar das crianças. Procurei sensibilizar a jovem para a importância de estudar e também de iniciar um negócio – para ter o seu tempo ocupado, ganhar novas competências, estar em contacto com outras pessoas, relacionar-se com os outros – em vez de estar sempre isolada em casa.

Passado umas semanas passei por lá, a ver como estavam as coisas e disseram-me que a relação entre eles estava a melhorar, que já se começavam a falar; no entanto começar a ir à escola e iniciar negócio, ainda não tinha sido trabalhado.

Ontem, voltei lá e fique maravilhada quando a jovem me disse que já tinha iniciado negócio de bolinhos e vai vendê-los para uma escola, que fica perto de casa – disse, que para já ainda está no inicio, que é para ver como corre, mas que vai continuar a tentar.

Na minha opinião, este exemplo, demonstra que é possível introduzir pequenas mudanças, num ciclo que se torna vicioso. É certo, que não será uma mudança impetuosa, mas devemos dar o tempo que as pessoas precisam para amadurecer determinadas ideias – pois, a mudança oferece sempre resistência!


Beijinhos e abraços,
Até breve!
Rita Castro Meneses


Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Actores/Actrizes de palmo e meio

Para além do trabalho do PTàD por vezes desenvolvemos outros trabalhos com a comunidade. Assim, ainda com a presença da voluntária Mónica Correia, desenvolvemos com algumas crianças do projecto uma peça de teatro sobre HIV/SIDA.
Este foi mais um canal de transmissão de informação e uma mensagem para as nossas mamãs e crianças na luta contra o HIV/SIDA! 

Afinal, através do teatro é possível divulgar mensagens!

Isabel Fernandes

a

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

O regresso

Como é bom regressar a esta Terra de Boa Gente… Voltar a sentir todo o carinho que estas pessoas têm por nós. Voltar a sentir todos os sorrisos. Voltar a sentir esta Natureza incrível. Voltar a sentir a vida como ela é: simples. E claro, voltar a sentir este calor! Talvez por ter estado algum tempo ausente, encontro-me mais sensível a qualquer mudança que tenha surgido nos nossos projectos. Onde senti mais mudanças foi sem dúvida em Inhassunge e na Casa Esperança. Em Inhassunge as diferenças que tenho sentido estão mais relacionadas com as condições em que as pessoas já se encontram a viver. Já encontramos algumas famílias finalmente a habitarem em boas casas, onde já não entra água, nem frio e já não existe o perigo eminente de ruir a qualquer momento. É extremamente gratificante observar toda esta evolução. É realmente um projecto de real importância e impacto na vida desta população. Aos poucos, passo a passo, vamos melhorando e intervindo em diferentes áreas. A higiene e a saúde são provavelmente a próxima etapa em que deveremos investir de forma a melhorar a qualidade de vida destas famílias. Já na Casa Esperança, é com toda a felicidade e orgulho que sinto que finalmente algo está a mudar! A energia da Casa Esperança está a mudar. Há vontade de melhorar, as crianças estão empenhadas e com muita vontade de fazer a diferença. A biblioteca também já abriu e já se tornou um espaço didáctico e de partilha, onde as crianças estão frequentemente a ler e a contar histórias, enquanto outros brincam com o jogo das letras e cantam baixinho uma música… Cria-se assim uma energia muito bonita naquele espacinho chamado Biblioteca Esperança. O campo de desporto também se encontra a ser reabilitado e posteriormente as crianças irão reaproveitar o galinheiro. Há sem dúvida um longo caminho a percorrer mas é tão, mas tão bom sentir que já não estamos parados… É bom acreditar que há Esperança na Casa e que aqui as crianças vão ser felizes.

Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Sem base não há bolo

Tem sido uma experiência bastante elucidativa dar explicações, na Casa Esperança às crianças que precisam da nossa ajuda em quase todas as disciplinas. Como sempre preferi matemática, dedico grande parte das minhas ajudas a essa disciplina, mas também ajudo pontualmente a português e inglês. Não duvido da capacidade das crianças, duvido sim da qualidade do seu ensino. Crianças que estão na 3ª e 4ª classe ainda não sabem ler fluentemente, sendo que algumas não o sabem sequer. Na realização de cálculos, também se detectam muitas lacunas, sendo a tabuada o ‘inimigo’ número um. Claro que não quero generalizar, também encontrei alguns casos em que o contrário se aplica, mas não deixei de ficar surpreendido com a realidade do ensino moçambicano.
Não duvido da vontade de ensinar da grande maioria dos professores, mas os requisitos para se dar aulas aos primeiros anos são de facto baixos, implicando isto que muitos deles não tenham qualificações suficiente para o fazer. Para se ser professor da 1ª à 7ª classe é apenas necessário ter terminado o 10º ano e mais um de especialidade e, como se isso não bastasse, existe ainda a passagem automática. Conversei com um amigo moçambicano sobre o funcionamento deste programa, em que a lógica seria o mesmo professor acompanhar uma mesma turma durante alguns anos seguidos, sendo que os alunos não reprovariam. Isto até faz algum sentido no papel, pois os professores poderiam conhecer as virtudes e defeitos de cada aluno e ‘trabalha-los’, tentando esquecer-nos por momentos que muitas turmas têm mais de 80 crianças. Mas o que acontece na realidade é que os alunos passam automaticamente e o professor não é o mesmo de ano para ano, ou seja, a lógica que existia no papel ‘evapora-se’. Mesmo assim ainda existem bastantes alunos que se encontram em risco de reprovar, mas nessa mesma conversa compreendi que isso prende-se ao facto de muitos professores exigirem um favor, ou suborno se quiser ser mais claro.
Pode parecer de facto que faz mais sentido serem os professores do ensino secundário e superior a terem uma educação mais longa, mas depois de alguns dias a pensar nisso já não tenho tanta certeza. Um professor do ensino básico tem de ter uma verdadeira vocação, o dom de comunicar e motivar. Um professor do ensino secundário e superior já terá de ter por sua vez mais conhecimentos, claro que as aptidões para comunicar e motivar não deixam de ser factores muito importantes, mas terá alunos com uma muito maior capacidade de atenção e trabalho, que por si só terão vontade de seguir as aulas. No caso dos alunos mais novos, se o professor não for capaz, as aulas serão uma simples passagem de tempo, ficando as bases do seu ensino seriamente comprometidas.
Esta diferença de requisitos na formação do professor cria ainda outro problema que se reflecte nas diferenças dos salários. Professores com menos anos de formação recebem menos, o que faz com que as escolas procurarem mais por estes, o que poderá até afastar uma pessoa que queira ser professor de ensino básico de apostar mais anos na sua própria formação.
Mesmo assim é preciso ter atenção, o ensino moçambicano melhorou muito nos últimos anos, continua é a precisar de melhorar. Estudava há pouco uns ‘papers’ onde a importância da educação para o desenvolvimento e crescimento de um país era enaltecida. A educação é essencial e ao mesmo tempo complementar ao desenvolvimento, quer isto dizer que quanto mais desenvolvido é um país, mais importância terá a educação secundária e universitária para o seu próprio crescimento. Para um país subdesenvolvido, como é o caso, o investimento na educação básica terá por sua vez um retorno muito mais acentuado.
Queria também referir a questão dos uniformes. Num país em que muita gente tem o dinheiro contado, todas as escolas obrigam os alunos a usar o uniforme. Como se isso não bastasse, os uniformes são diferentes de escola para escola, o que faz com que alunos que mudem de escola tenham de comprar outro uniforme. Isto, segundo o meu ponto de vista, é totalmente contraproducente. Num país em que um dos principais combates deve ser o êxodo escolar, se assim se pode chamar à desistência escolar, os uniformes são mais uma barreira para o conseguir. Bem sei que a ideia é não criar diferenciação entre as classes dos alunos, mas para isso bastaria um uniforme por cidade, ou até para Moçambique inteiro.
Por último, e mesmo sem ter nada a ver com o falado antes, gostaria de responder ao último post da Mónica. Não posso deixar de concordar com o facto de nós, os voluntários, aprendermos muito com as pessoas que ajudamos. Isto não quer dizer que o povo moçambicano não tenha muito a aprender connosco, apenas que o contrário também se aplica. A vida por ser demasiado precária requer um sorriso pronto, algo que a cultura ocidental parece ter esquecido. Sem querer generalizar, parece-me que as sociedades menos desenvolvidas economicamente são mais desenvolvidas na arte de viver a vida. Claro que podemos encontrar casos em que isto não se aplica, mas quando queremos refutar algo com todas as nossas forças existe sempre possibilidades de o fazer. Não é de facto fácil admitir que os que supostamente são menos desenvolvidos poderão aproveitar melhor a vida que os mais desenvolvidos. Espero pelo dia em que alguém crie um índice de felicidade, em que duas das dimensões utilizadas serão por exemplo a económica, com indicadores como PIB per capita e por aí adiante, e a de alegria dos povos, onde os indicadores serão os sorrisos diários, hospitalidade, etc., o resultado será certamente engraçado de ver. Não quer isto tudo dizer que a pobreza não existe e que não deva de ser combatida, apenas que a ‘verdade’ não está só do nosso lado.

Duarte