Sábado, 13 de Novembro de 2010

Realidade paralela

Os dias cá parece que voam empurrados pelo trabalho. Nestas últimas duas semanas iniciámos mais uma fase de visitas para ver como têm as famílias que a ataca apoia empregue o dinheiro. Quando chegamos, vão buscar umas cadeiras ou, se não as têm, uma esteira para nos sentarmos. É preciso guardarem recibos com os gastos para nos mostrarem. Depois tiramos fotografias aos ítems comprados ou aos recibos e a organização envia-as aos padrinhos para estes verem como tem sido gasto o seu dinheiro. É impressionante como há famílias que vivem tão mal, sem latrina, luz, cama ou comida suficiente. Por outro lado também é bom sabermos que “pouco pouco” (como cá se diz), as coisas vão melhorando com a ajuda da ataca. É engraçado ver a evolução das famílias nas fotos. No início vivem tão mal que não se consegue perceber como sobrevivem no dia-a-dia, mas depois já se vêm casas com latrinas construídas, luz, água tratada e chapa no telhado.













Antes e Depois

Ao fim de meses longe do que conhecemos, chega o sentimento de estarmos a viver numa realidade paralela. O sentimento é talvez reforçado pela falta de contacto com o mundo exterior através da internet, mas é muito mais do que isso. É o acordar e deitar num país completamente diferente, onde tudo o que tomamos por “normal” é “anormal”. Uma criança não tem um lápis para escrever na escola, muitos usam a mesma roupa durante anos até ao desgaste final, não têm o que comer dias e dias e não se queixam - cá é normal. Os brinquedos também são diferentes; a imaginação obriga a criá-los. Numa das nossas visitas encontrámos um pequeno a tocar bateria. Pratos, panelas e baldes mas ele estava compenetrado como se fosse de verdade (vejam se na foto encontram a plateia escondida!). Num outro dia, dois pequenos no bairro seguravam um pau com um carrinho rudimentar colado na ponta, feito de restos de cartão e tampas de garrafa. Se pensarmos bem, antes é que vivíamos numa realidade paralela, este é o mundo real.















Já na Casa Esperança as crianças estão de férias. É triste “ver a casa sem falar e sem andar” como diz o Josué que ainda cá está. A grande parte deles foi para casa de familiares para que não percam o contacto com a família que ainda têm, afinal de contas não hão-de ficar para sempre na Casa Esperança. A Irmã diz também ser bom num outro sentido: eles assim hão-de dar mais valor ao que têm na Casa Esperança quando voltarem. As poucas crianças que cá ficaram começaram agora a praticar basquetebol. Fomos a um centro desportivo para pedir que os deixassem lá praticar de graça e os pequenos já estão ansiosos pelos próximos treinos. Estamos a tentar que a prática continue para além das férias e que se alargue aos outros que ainda cá não estão. No início, fomos e jogámos com eles. Notaram que os outros tinham parado de jogar para os observar e ficaram mais acanhados ainda. Fomos então ter com a plateia e perguntámos se não queriam vir ensinar-nos a jogar e veio logo um grupo simpático juntar-se a nós. Ainda não lhes dissemos, e eles também ainda não repararam, mas o turno onde os puseram é o das meninas. Isto porque eles não sabem jogar e o clube é de competição. Alguma variedade no convívio diário deles só pode fazer-lhes bem.
O trabalho, esse, não dá descanso. Felizmente que terminámos alguma parte dele e agora... só falta muito outro trabalho: visitar a outra metade das famílias para ver em que é que gastaram o dinheiro, recolher as notas em falta dos pequenos mais esquecidos, pôr todos a fazerem a prenda de natal para os padrinhos (surpresa!), fazer a entrega de dinheiro e combinar em que se irá gastá-lo, processar toda esta informação para enviar para Portugal e ainda ir a Ocua.
Damos mais notícias mal possamos!Beijinhos de cá!

J+F