Depois de horas a percorrer a região e a visitar casas, fizemos uma pausa para comer. Estas pausas dão para nos inteirarmos um pouco sobre a cultura local através das histórias que nos contam. Em Inhassunge, por exemplo, acredita-se que as mulheres idosas são feiticeiras, pois de outro modo “não conseguiriam sobreviver nesta terra durante tanto tempo”. Outras razões também levam a reforçar estas crenças. Foi-nos explicado, por exemplo, que no ambiente tropical de Inhassunge é bem possível que faça sol em algumas zonas, enquanto que noutras, localizadas a escassos 200 metros, chova intensamente. Assim, se chove na machamba (pequena área de cultivo, essencialmente para consumo próprio) da velhinha e na do vizinho não, faz com que toda a superstição dela ser feiticeira se confirme. O ciclo continua e é reforçado com novas histórias (contadas sempre por um amigo de um vizinho que conhece alguém que diz que viu) de carregamentos nocturnos de alimentos - em misteriosos camiões - que chegam para a velhinha feiticeira. Infelizmente a superstição chega, por vezes, a extremos violentos com maior incidência nesta região. Depois de recuperarmos as forças e de ouvirmos alguns destes relatos prosseguimos a nossa busca.
Ao final da tarde, acabamos por ter as “nossas” crianças: o Amade, a Hortência e a Rosário. As três vivem em condições miseráveis, em casas de pau cobertas por folhas de coqueiro, sem electricidade, sem água própria para consumo e sem latrina, comendo em média apenas uma refeição por dia (muito pobre em importantes nutrientes) ou mesmo nenhum
Durante a caminhada de volta para o local previamente combinado com o motorista da Concern, começou repentinamente a chover torrencialmente onde estávamos (mais tarde soubemos que fez, na mesma altura, um sol de verão em Quelimane – do outro lado do rio). Apesar de ficarmos completamente encharcados, até soube bem - a chuva deu para arrefecer da caminhada. Aquando da nossa chegada ao local de encontro com o jipe já era noite (nesta época, às 17h já começa a ficar escuro). Dentro do jipe já se encontravam os trabalhadores da Concern (que trabalham em Inhassunge mas residem, no fim-de-semana, em Quelimane) que também iriam atravessar o rio. Como o último barco partia às 18h e no relógio marcavam 17h:40min estava tudo exaltado! A caminhada tinha sido longa e a passo rápido, não tinha sido possível chegar mais cedo. Felizmente já não estávamos longe mas quando chegámos o barco tinha acabado de largar. As pessoas saem do carro a esbracejar e a gritar, o motorista apita e faz sinais de luzes e o barco recua ruidosamente de volta para a margem. Ao atracar uma senhora que vinha connosco reclama: “Ainda não são 18, não podem partir antes da hora!”. O barqueiro, enquanto amarra o barco, responde calmamente “Mamã, tenho meus filhos em casa. Se chego tarde, qualquer dia meus filhos vão achar que vizinho é pai”.
Sempre lindos os olhos e os sorrisos destas crianças!
ResponderEliminarSem palavras para comentar o que li e vi.
Força voluntários!
Mais um sensível relato dos nosso grande voluntários! Uma última força, para a parte final da vossa nobre missão!
ResponderEliminarUm abraço,
Mike
Há sempre um dia em que chegamos atrasados à margem e há sempre um barco que que retorna para nos acolher, mas nós na ataca é que não podemos chegar muito atrasados para, ainda, podermos ajudar as crianças de Inhassunge.
ResponderEliminarUm abraço para vocês e o nosso reconhecimento por terem chegado tarde à partida do barco.
durana pinto
é muito bom poder conhecer + sobre a ilha d Inhansunge.Faço um trabalho voluntario aqui na minha cidade p\ Base Missionária da JOCUM, onde é desenvolvido um trabalho d apoio a crianças recem nacidas com falencia d crescimento, (mães soro positivo, é muito gratificante.
ResponderEliminarbjs no coração.