Tem sido uma experiência bastante elucidativa dar explicações, na Casa Esperança às crianças que precisam da nossa ajuda em quase todas as disciplinas. Como sempre preferi matemática, dedico grande parte das minhas ajudas a essa disciplina, mas também ajudo pontualmente a português e inglês. Não duvido da capacidade das crianças, duvido sim da qualidade do seu ensino. Crianças que estão na 3ª e 4ª classe ainda não sabem ler fluentemente, sendo que algumas não o sabem sequer. Na realização de cálculos, também se detectam muitas lacunas, sendo a tabuada o ‘inimigo’ número um. Claro que não quero generalizar, também encontrei alguns casos em que o contrário se aplica, mas não deixei de ficar surpreendido com a realidade do ensino moçambicano.
Não duvido da vontade de ensinar da grande maioria dos professores, mas os requisitos para se dar aulas aos primeiros anos são de facto baixos, implicando isto que muitos deles não tenham qualificações suficiente para o fazer. Para se ser professor da 1ª à 7ª classe é apenas necessário ter terminado o 10º ano e mais um de especialidade e, como se isso não bastasse, existe ainda a passagem automática. Conversei com um amigo moçambicano sobre o funcionamento deste programa, em que a lógica seria o mesmo professor acompanhar uma mesma turma durante alguns anos seguidos, sendo que os alunos não reprovariam. Isto até faz algum sentido no papel, pois os professores poderiam conhecer as virtudes e defeitos de cada aluno e ‘trabalha-los’, tentando esquecer-nos por momentos que muitas turmas têm mais de 80 crianças. Mas o que acontece na realidade é que os alunos passam automaticamente e o professor não é o mesmo de ano para ano, ou seja, a lógica que existia no papel ‘evapora-se’. Mesmo assim ainda existem bastantes alunos que se encontram em risco de reprovar, mas nessa mesma conversa compreendi que isso prende-se ao facto de muitos professores exigirem um favor, ou suborno se quiser ser mais claro.
Pode parecer de facto que faz mais sentido serem os professores do ensino secundário e superior a terem uma educação mais longa, mas depois de alguns dias a pensar nisso já não tenho tanta certeza. Um professor do ensino básico tem de ter uma verdadeira vocação, o dom de comunicar e motivar. Um professor do ensino secundário e superior já terá de ter por sua vez mais conhecimentos, claro que as aptidões para comunicar e motivar não deixam de ser factores muito importantes, mas terá alunos com uma muito maior capacidade de atenção e trabalho, que por si só terão vontade de seguir as aulas. No caso dos alunos mais novos, se o professor não for capaz, as aulas serão uma simples passagem de tempo, ficando as bases do seu ensino seriamente comprometidas.
Esta diferença de requisitos na formação do professor cria ainda outro problema que se reflecte nas diferenças dos salários. Professores com menos anos de formação recebem menos, o que faz com que as escolas procurarem mais por estes, o que poderá até afastar uma pessoa que queira ser professor de ensino básico de apostar mais anos na sua própria formação.
Mesmo assim é preciso ter atenção, o ensino moçambicano melhorou muito nos últimos anos, continua é a precisar de melhorar. Estudava há pouco uns ‘papers’ onde a importância da educação para o desenvolvimento e crescimento de um país era enaltecida. A educação é essencial e ao mesmo tempo complementar ao desenvolvimento, quer isto dizer que quanto mais desenvolvido é um país, mais importância terá a educação secundária e universitária para o seu próprio crescimento. Para um país subdesenvolvido, como é o caso, o investimento na educação básica terá por sua vez um retorno muito mais acentuado.
Queria também referir a questão dos uniformes. Num país em que muita gente tem o dinheiro contado, todas as escolas obrigam os alunos a usar o uniforme. Como se isso não bastasse, os uniformes são diferentes de escola para escola, o que faz com que alunos que mudem de escola tenham de comprar outro uniforme. Isto, segundo o meu ponto de vista, é totalmente contraproducente. Num país em que um dos principais combates deve ser o êxodo escolar, se assim se pode chamar à desistência escolar, os uniformes são mais uma barreira para o conseguir. Bem sei que a ideia é não criar diferenciação entre as classes dos alunos, mas para isso bastaria um uniforme por cidade, ou até para Moçambique inteiro.
Por último, e mesmo sem ter nada a ver com o falado antes, gostaria de responder ao último post da Mónica. Não posso deixar de concordar com o facto de nós, os voluntários, aprendermos muito com as pessoas que ajudamos. Isto não quer dizer que o povo moçambicano não tenha muito a aprender connosco, apenas que o contrário também se aplica. A vida por ser demasiado precária requer um sorriso pronto, algo que a cultura ocidental parece ter esquecido. Sem querer generalizar, parece-me que as sociedades menos desenvolvidas economicamente são mais desenvolvidas na arte de viver a vida. Claro que podemos encontrar casos em que isto não se aplica, mas quando queremos refutar algo com todas as nossas forças existe sempre possibilidades de o fazer. Não é de facto fácil admitir que os que supostamente são menos desenvolvidos poderão aproveitar melhor a vida que os mais desenvolvidos. Espero pelo dia em que alguém crie um índice de felicidade, em que duas das dimensões utilizadas serão por exemplo a económica, com indicadores como PIB per capita e por aí adiante, e a de alegria dos povos, onde os indicadores serão os sorrisos diários, hospitalidade, etc., o resultado será certamente engraçado de ver. Não quer isto tudo dizer que a pobreza não existe e que não deva de ser combatida, apenas que a ‘verdade’ não está só do nosso lado.
Duarte