Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Actores/Actrizes de palmo e meio

Para além do trabalho do PTàD por vezes desenvolvemos outros trabalhos com a comunidade. Assim, ainda com a presença da voluntária Mónica Correia, desenvolvemos com algumas crianças do projecto uma peça de teatro sobre HIV/SIDA.
Este foi mais um canal de transmissão de informação e uma mensagem para as nossas mamãs e crianças na luta contra o HIV/SIDA! 

Afinal, através do teatro é possível divulgar mensagens!

Isabel Fernandes

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

O regresso

Como é bom regressar a esta Terra de Boa Gente… Voltar a sentir todo o carinho que estas pessoas têm por nós. Voltar a sentir todos os sorrisos. Voltar a sentir esta Natureza incrível. Voltar a sentir a vida como ela é: simples. E claro, voltar a sentir este calor! Talvez por ter estado algum tempo ausente, encontro-me mais sensível a qualquer mudança que tenha surgido nos nossos projectos. Onde senti mais mudanças foi sem dúvida em Inhassunge e na Casa Esperança. Em Inhassunge as diferenças que tenho sentido estão mais relacionadas com as condições em que as pessoas já se encontram a viver. Já encontramos algumas famílias finalmente a habitarem em boas casas, onde já não entra água, nem frio e já não existe o perigo eminente de ruir a qualquer momento. É extremamente gratificante observar toda esta evolução. É realmente um projecto de real importância e impacto na vida desta população. Aos poucos, passo a passo, vamos melhorando e intervindo em diferentes áreas. A higiene e a saúde são provavelmente a próxima etapa em que deveremos investir de forma a melhorar a qualidade de vida destas famílias. Já na Casa Esperança, é com toda a felicidade e orgulho que sinto que finalmente algo está a mudar! A energia da Casa Esperança está a mudar. Há vontade de melhorar, as crianças estão empenhadas e com muita vontade de fazer a diferença. A biblioteca também já abriu e já se tornou um espaço didáctico e de partilha, onde as crianças estão frequentemente a ler e a contar histórias, enquanto outros brincam com o jogo das letras e cantam baixinho uma música… Cria-se assim uma energia muito bonita naquele espacinho chamado Biblioteca Esperança. O campo de desporto também se encontra a ser reabilitado e posteriormente as crianças irão reaproveitar o galinheiro. Há sem dúvida um longo caminho a percorrer mas é tão, mas tão bom sentir que já não estamos parados… É bom acreditar que há Esperança na Casa e que aqui as crianças vão ser felizes.

Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Sem base não há bolo

Tem sido uma experiência bastante elucidativa dar explicações, na Casa Esperança às crianças que precisam da nossa ajuda em quase todas as disciplinas. Como sempre preferi matemática, dedico grande parte das minhas ajudas a essa disciplina, mas também ajudo pontualmente a português e inglês. Não duvido da capacidade das crianças, duvido sim da qualidade do seu ensino. Crianças que estão na 3ª e 4ª classe ainda não sabem ler fluentemente, sendo que algumas não o sabem sequer. Na realização de cálculos, também se detectam muitas lacunas, sendo a tabuada o ‘inimigo’ número um. Claro que não quero generalizar, também encontrei alguns casos em que o contrário se aplica, mas não deixei de ficar surpreendido com a realidade do ensino moçambicano.
Não duvido da vontade de ensinar da grande maioria dos professores, mas os requisitos para se dar aulas aos primeiros anos são de facto baixos, implicando isto que muitos deles não tenham qualificações suficiente para o fazer. Para se ser professor da 1ª à 7ª classe é apenas necessário ter terminado o 10º ano e mais um de especialidade e, como se isso não bastasse, existe ainda a passagem automática. Conversei com um amigo moçambicano sobre o funcionamento deste programa, em que a lógica seria o mesmo professor acompanhar uma mesma turma durante alguns anos seguidos, sendo que os alunos não reprovariam. Isto até faz algum sentido no papel, pois os professores poderiam conhecer as virtudes e defeitos de cada aluno e ‘trabalha-los’, tentando esquecer-nos por momentos que muitas turmas têm mais de 80 crianças. Mas o que acontece na realidade é que os alunos passam automaticamente e o professor não é o mesmo de ano para ano, ou seja, a lógica que existia no papel ‘evapora-se’. Mesmo assim ainda existem bastantes alunos que se encontram em risco de reprovar, mas nessa mesma conversa compreendi que isso prende-se ao facto de muitos professores exigirem um favor, ou suborno se quiser ser mais claro.
Pode parecer de facto que faz mais sentido serem os professores do ensino secundário e superior a terem uma educação mais longa, mas depois de alguns dias a pensar nisso já não tenho tanta certeza. Um professor do ensino básico tem de ter uma verdadeira vocação, o dom de comunicar e motivar. Um professor do ensino secundário e superior já terá de ter por sua vez mais conhecimentos, claro que as aptidões para comunicar e motivar não deixam de ser factores muito importantes, mas terá alunos com uma muito maior capacidade de atenção e trabalho, que por si só terão vontade de seguir as aulas. No caso dos alunos mais novos, se o professor não for capaz, as aulas serão uma simples passagem de tempo, ficando as bases do seu ensino seriamente comprometidas.
Esta diferença de requisitos na formação do professor cria ainda outro problema que se reflecte nas diferenças dos salários. Professores com menos anos de formação recebem menos, o que faz com que as escolas procurarem mais por estes, o que poderá até afastar uma pessoa que queira ser professor de ensino básico de apostar mais anos na sua própria formação.
Mesmo assim é preciso ter atenção, o ensino moçambicano melhorou muito nos últimos anos, continua é a precisar de melhorar. Estudava há pouco uns ‘papers’ onde a importância da educação para o desenvolvimento e crescimento de um país era enaltecida. A educação é essencial e ao mesmo tempo complementar ao desenvolvimento, quer isto dizer que quanto mais desenvolvido é um país, mais importância terá a educação secundária e universitária para o seu próprio crescimento. Para um país subdesenvolvido, como é o caso, o investimento na educação básica terá por sua vez um retorno muito mais acentuado.
Queria também referir a questão dos uniformes. Num país em que muita gente tem o dinheiro contado, todas as escolas obrigam os alunos a usar o uniforme. Como se isso não bastasse, os uniformes são diferentes de escola para escola, o que faz com que alunos que mudem de escola tenham de comprar outro uniforme. Isto, segundo o meu ponto de vista, é totalmente contraproducente. Num país em que um dos principais combates deve ser o êxodo escolar, se assim se pode chamar à desistência escolar, os uniformes são mais uma barreira para o conseguir. Bem sei que a ideia é não criar diferenciação entre as classes dos alunos, mas para isso bastaria um uniforme por cidade, ou até para Moçambique inteiro.
Por último, e mesmo sem ter nada a ver com o falado antes, gostaria de responder ao último post da Mónica. Não posso deixar de concordar com o facto de nós, os voluntários, aprendermos muito com as pessoas que ajudamos. Isto não quer dizer que o povo moçambicano não tenha muito a aprender connosco, apenas que o contrário também se aplica. A vida por ser demasiado precária requer um sorriso pronto, algo que a cultura ocidental parece ter esquecido. Sem querer generalizar, parece-me que as sociedades menos desenvolvidas economicamente são mais desenvolvidas na arte de viver a vida. Claro que podemos encontrar casos em que isto não se aplica, mas quando queremos refutar algo com todas as nossas forças existe sempre possibilidades de o fazer. Não é de facto fácil admitir que os que supostamente são menos desenvolvidos poderão aproveitar melhor a vida que os mais desenvolvidos. Espero pelo dia em que alguém crie um índice de felicidade, em que duas das dimensões utilizadas serão por exemplo a económica, com indicadores como PIB per capita e por aí adiante, e a de alegria dos povos, onde os indicadores serão os sorrisos diários, hospitalidade, etc., o resultado será certamente engraçado de ver. Não quer isto tudo dizer que a pobreza não existe e que não deva de ser combatida, apenas que a ‘verdade’ não está só do nosso lado.

Duarte

Domingo, 1 de Abril de 2012

O que realmente motiva...

Quando decidi fazer voluntariado fi-lo porque considerei que poderia dar muito mais aos outros, do que realmente estava a dar. E este sentimento prolongou-se, além fronteiras, quando percebi que o Mundo é um só e que, de certa forma, estamos todos inter-ligados. Tornou-se numa decisão mais sólida quando conheci os pressupostos da ataca – e aqui está outro motivo que me impeliu a fazer voluntariado: acreditar na causa!

O que me leva a escrever hoje é o facto de dar por mim a pensar que, durante o voluntariado que fiz em Portugal, pensava saber o que me motivava de verdade… mas, afinal não o sabia…
Quando decidi vir, continuava a ser pela causa… Mas, até chegar aqui a causa é abstracta. “Combater a pobreza extrema”, “crianças carenciadas”… Afinal, o que é? O que são?

As “crianças carenciadas” são meninos e meninas que quando chove, a chuva entra dentro de casa, meninos e meninas que não têm um quarto só seu, que usam a mesma roupa até não se notar a cor, que andam descalças por não terem sapatos, que não comem por não haver “mola” (dinheiro) para comprar alimentos; meninos e meninas que não vão à escola… Meninos e meninas que, quando começam a usufruir de apoios como os da ataca, passam a ter as condições necessárias para ir à escola - um passo de grande importância para o seu futuro – começam a andar calçadas, começam a ter o que comer… Pouco a pouco começam a ter condições dignas de sobrevivência, que se trabalhará para evoluir até condições dignas de Vida!

O que realmente motiva, o que realmente faz sentido é estar em contacto, em convivência com as pessoas! A importância do voluntário estar no terreno é partilhar o contexto das pessoas apoiadas. De meros nomes, meros conceitos passam a realidades concretas - são pessoas com rosto e traçadas por inúmeras vicissitudes. E se nomes e conceitos podemos esquecer… Pessoas, jamais!

Beijinhos e abraços,
Até breve!
Rita Castro Meneses